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Heróis da Resistência

02/06/2010

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Com primorosa mise-en-scene noir e extraindo atuações firmes, disciplinada e apaixonantes, o dinamarquês Ole Christian Madsen contextualizada a História na mitificação de Flame e Citron, dupla de assassinos que participou de inúmeras operações de sabotagem e execuções de informantes numa Copenhagen invadida pelos alemães de 1943 e 44.

Em Flammen & Citronen(2008), Madsen, coautor do roteiro baseado em fatos reais da segunda Guerra Mundial, assume um thriler de espionagem estilizado e pungente ao levantar a moralidade impura e a questão/conceito do heroísmo que cerca esses dois lendários membros de Holger Danske, grupo dinamarquês de resistência aos nazistas.

Enquanto o enigmático e taciturno Citron, Mads Mikkelsen, afasta-se cada vez mais de sua muler e filha, dominado pela austeridade e idealismo. O asseado ruivinho destemido, interpretado pelo carismático Thure Lindhardt, envolve-se com uma misteriosa mulher incerto da verdadeira relação com os nazistas. 

Membros do partido são expostos e assassinados denunciando a existência de um agente duplo. Informações plantadas e manipulações das ordens de execução expedidas pelo alto escalãoinflam um jogo de lealdade e princípios. A dupla segue, então, num plano autonomo de eliminar o chefe da Gestapo na Dinamarca enquanto o preço por suas cabeças está cada vez mais inflacionado.

Coco: bonitinha mas ordinária.

01/06/2010

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O romance de Coco Chanel, com o comerciante comerciante inglês Arthur “Boy” Capel, encontra trágico fim com a morte de Boy, aquele que a levou á Paris e investiu em sua primeira grife de chapéus, num acidente de carro. Essa passagem biográfica encerra o didático “Coco Before Chanel”(2009) com Audrey Tautou, de luto, desfilando sua primeira coleção e dá partida a produção art nouveaulesca de “Coco Chanel & Igor Stravinsky”(2009).

Era 1913, o compositor russo Igor Stravinsky estreou em pleno Théâtre des Champs Elysées  seu revolucionário e polêmico espetáculo. A rejeição foi generalizada, porém uma igualmente vanguardista espectadora sentiu verve como a modernidade do balé apresentado. Sete anos mais tarde foram apresentados.

A atração foi instantânea e elétrica. Influente, Chanel decide patrocinar a produção do novo balé e hospeda Stravinsky em sua residência em Garches, juntamente com sua esposa e filhos, para que ele tivesse um ambiente que o ajudasse a compor. As visitas de Coco eram constantes e os dois iniciaram um romance majoritariamente sexual.

Coco Depois de Chanel evoca os valores franceses: a elegância, a liberdade e a insolência, que, apesar de imperativa e imperialista, Anna Mouglalis veste de forma branda. Mads Mikkelsen prende-se a austeridade do compositor russo. A forte personalidade de dois ícones artísticos do século, é decorada por interiores art-deco estilizados, sons e imagens entregues pelo título e pouco diálogo, traduzindo um dúbio vazio em questionarmos este o encontro como um capricho temporário.

O affaire é ilustrado quase avulsamente á carreira da impiedosa dona da Maison Chanel e a confecção do icônico perfume Chanel nº 5, exceto pela fútil arrogância da personagem em presentear a enferma esposa de seu amante com um frasco do perfume, fato que culminou com a saída de Catherine Stravinsky e os filhos da residência Chanel. Construção e condução que ganham ares redentores no epílogo juntamente com a própria Madeimoselle, aos 88 anos, rica e solitária em sua suíte no Ritz, em seu derradeiro suspiro.

Deliciosamente incorreto

31/05/2010

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O prolífico roteirista de Stealing Rembrandt(2003), The Duchess(2008), Brødre(2004),  Brothers(2009), do vencedor na categoria melhor curta metragem este ano The New Tenants, e supervisor do Anticristo de seu conterrâneo Lars Von Trier, Anders Thomas Jensen assumiu as câmeras no ano de 2000 e embarcou em uma saga recheada de humor mordaz, diálogos ágeis e tão surreais quanto pertinentes e situações inóspitas com personagens amorais sitiados na zona rural de sua Dinamarca.

 Em Blinkende Iygter/Flickering Lights, um grupo de gângster foge com a grana de um mafioso e acaba no interior do país onde, com o passar das semanas, e vacas metralhadas no processo, o desejo de permanecer no local entra em conflito com o passado criminoso do bando. Três anos mais tarde, em De grønne slagtere/The Green Butchers, dois funcionários revoltam-se contra o patrão e tentam abrir seu próprio açougue, acidentes infortunosos coincidem com uma grande encomenda de carne e o negócio prospera.

Mads mikkelsen encerra sua participação na trilogia com Adams æbler/ Adam’s Apples“(2005), onde  interpreta um injustificável vigário, que personifica a passagem bíblica “dar a outra face”, encarregado de supervisar detentos num programa alternativo de liberdade condicional. O recém-chegado é Adam, um skinhead hostil, confrontado desde o primeiro dia pelo diabo em sua nova missão paroquial: a de confeccionar um bolo com os vistosos frutos da macieira.

Por sua vez, o neonazista confronta o comportamento inabalavelmente otimista do padre violentamente proporcional a revelações graduais dos outros  fiéis que buscam orientação do pároco: um cleptomaníaco com histórico de estrupro, um imigrante que rouba de multinacionais e uma grávida desequilibrada.

Em “Entre o Bem e o Mal”, optando pela gratuidade da violência e abordagem explícita de temas como pedofilia, paralisia cerebral, câncer, suicídio, holocausto e negação, Anders é capaz de orquestrar com um roteiro sagaz e extremamente bem humorado, diálogos tentadores e personagens desajustados e politicamente incorretos uma fita agradabilíssima.

 

Sobre Lord Voldemort, Le Chiffre e O Incrível Hulk

26/05/2010

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O que esperar de mais um blockbuster protagonizado por Sam Worthington e sua irrefutável ausência de humor ou carisma sem ainda poder contar com a qualidade imersiva dos recursos visuais tecnológicos que salvaram Avatar(2009)?

O arrebatador marketing do 3D,  integrado a fita após as filmagens encerradas em 2D, é um artifício a mais na lista de promessas não entregues por “Fúria de Titãs”(2010). Não há Titãns. Pelos menos, não os originais do monte Olimpo, aliás a assustadora criatura maligna prometida durante todo filme é emprestada da mitologia nórdica. Tampouco há Fúria. Num longa calcado e anunciado nos efeitos especiais, o uso dos óculos, a necessidade em pagar a diferença para recebê-los no início da sessão, se une ao um roteiro descalcificado na leviandade.

Como marionetes dos deuses de Hollywood, Sam Avatar é o bastardo semideus Perseu, curiosamente o único não transfigurado pelos maquiadores para o período helênico com cabelos e barba desgrenhados como Liam Neeson: um Zeus que, na condição de emburrado com a nova pretensão autônoma dos humanos, convoca para assustar os mortais seu irmão das trevas: Ralph Fiennes, como Lord Voldemort, quer dizer, Hades. Na verdade não só atores como também as criaturas e paisagens são como entidades emprestadas de “Harry Potter” e “O Escorpião Rei”.

Destaque para o crível guerreiro Draco, personificado com o charme e as, então reveladas, pernas finas do dinamarquês Mads Mikkelsen, o sisudo Le Chiffre de Casino Royale(2006), com a missão de incentivar Perseu a despeito de seu discurso teimoso. Os outros personagens apenas compõem uma dessaborida confusão polimitológica orquestrada por Louis Letterier, aquele mesmo que cinco anos após uma enxurrada de críticas negativas para o Hulk(2003) de Ang Lee, conseguiu executar um fiasco ainda pior com o re-remake de 2008, igualmente recheado de atores de linha justificando resultados vergonhosos com cachês astronômicos. Em “…Titãs“, Letterier consegue arrancar apenas bocejos durante a apoteótica evocação de Zeus para o releaseamento do Kraken: momento “ah, já tá acabando o filme”.

Vibração e curiosidade são propriedades exclusivas do trailler, apesar de não fugir a condição de compilação das cenas aproveitáveis de “Clash of Titans”, há um frenesi fugaz. A sincronia das batidas na trilha majestosa com as garras de um gigante escorpião aguilhoando contra o solo é particularmente emocionante.

Alice in Disneyland

25/05/2010

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É inegável o talento de Tim Burton para traduzir e construir mundos particulares (e peculiares) e ao assumir o comando da nova adaptação dos contos de Lewis Carroll, foi possível nos antecipar para um espetáculo visual recheado fantasia. Entregue. Os cenários surrealistas (de Carroll) e sombrios(de Burton) ainda receberam uma terceira dimensão que nos submerge juntamente com Alice no mundo mágico em “Alice in Wonderland“(2010).

O segundo talento de Burton, em delinear personagens marginais, que fogem a conveniências pré-estabelecidas, não apareceu no roteiro de Linda Woolverton (“A Bela e a Fera”(1991) , “O Rei Leão”(1994) e “Mulan”(1998)). Um tanto quanto confuso e superficial, a demanda dos padrões Disney, em oposição a aleatoriedade da viagem episodial de Alice contra o tédio.

Entre outros artifícios, Woolverton amadureceu Alice e entregou um tedioso prólogo para apresentar um dilema existencial para a protagonista. A nova Alice é agora uma adolescente libertária e feminista que confronta o uso do espartilho e questiona a decisão da mãe viúva em lhe arranjar casamento com um almofadinha, um tanto quanto repulsivo, conveniente para a família. É durante a cerimônia de noivado que Alice segue o emblemático coelho branco e retorna ao mundo onírico de seus sonhos de infância.

 Em meio a fraca combinação, e muitos beiram apenas a citação, de exóticos personagens dos distintos  Alice’s Adventures in Wonderland (publicado em 1865) e Through the Looking Glass(1871), a narrativa Disney impera e Alice ganha status de heroína com a missão de salvar o submundo do reinado da Rainha Vermelha de um monstro que facilmente poderia estar em Nárnia ou Hogwarts numa apoteótica batalha final da insossa Alice contra a fera, batalha que resume o longa: visualmente exuberante porém massacrado pela condução bestial- imperialista da estória e sua personagens alegóricas.

Nessa linha melindrosa entre o alegórico e o ridículo, segue a explicitamente forçosa Princesa Branca, mas, pelo conjunto da obra, a culpa não cai sobre Anne Hathaway pelos excessivos maneirismos, sua irmã má(!) é a Rainha Vermelha, que nos livros não é a que sentenciava compulsivamente as cabeças alheias, a de Copas. Apesar da falha é a única que invoca alguma curiosidade e simpatia do espectador, apesar de ser a vilã. E ainda os excelentes Crispin Glover, Stephen Fry e Alan Rickman como Valete de Copas, Gato Cheshire e a centopéia respectivamente, são igualmente minados pelas prioridades da superprodução:

Como o novo Chapeleiro, que passa por uma fonte da juventude para ganhar status de coprotagonista, numa versão completamente inacertada da doçura traumada de Edward (“…Mãos de Tesoura”) transvestida com uma peruca laranja latente, esbugalhados olhos verdes claros e dentes separados num resultado que facilmente se assemelha com uma Madonna a la Tim Burton. Além disso, Johnny Deep sujeita-se a um embaraçoso momento numa dança (break!) comemorativa que certamente deve agradar (somente) o público infanto-juvenil dos longas da Disney, e que ainda é repetido no epílogo por Alice quando retorna para a festa de noivado.

O inescrutável Sabor da Melancia

21/05/2010

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Em “What Time Is It There?”(2001), um vendedor de relógios de Taipei é tomado por um impulso de ajustá-los para o horário de Paris após uma venda para uma mulher em fuga para a capital francesa. Além de trechos de “Os Incompreendidos”(1959), Jean-Pierre Léaud, francês que interpretou o alteregóico Antoine Doinel nos filmes de Truffaut, faz uma participação no longa taiwanês.

 Outra menção de Ming-liang Tsai ao icônico cineasta parisiense é a conservação de mesmo personagem em seus filmes. Em 2005, o ex-vendedor de relógios,agora ator pornô, reencontra sua melindrosa compradora no musical erótico, por assim dizer, “The Wayward Cloud”.

Apesar de considerar certa alienação das premiações de Berlim depois de Tropa de Elite, concorrendo com Standard Operating Procedure, Zuo You, Hanami e There Will be Blood, a condição de Urso de Prata foi a principal referência para experimentar “O Sabor da Melancia”(2005) recentemente na Virada Gastronômica. 

Uma onde de calor e seca atinge a capital taiwanesa e em meio há um severo racionamento de água as apetitosas e hidratantes melancias estão supercotadas. Na cena inicial uma mulher deitada na cama sustenta o apetitoso fruto na virilha e um homem junta-se a ela em um ato sexual inter-reino e com alguns minutos a sala lotada já perde alguns espectadores. Instantaneamente me remeteu a um dos primeiros festivais que freqüentei, uma sessão de Anatomia do Inferno(2004) com Rocco Siffredi, nome que deixou de ser indiferente no início do primeiro tempo, quando fui eu que deixei a sala de projeção.

 Mas diferente do didatismo fisionomista de Catherine Breillat, o ménage com a melancia produziu mais risos do que asco, e já simpatizante do circuito asiático, eu, já não tão cinematograficamente pudica, condenei as pessoas que ceifaram a fita tão brevemente, e decidi que eles estariam perdendo. Logo, aviso, esta segue uma resenha indulgente.

E para quem estava disposto a experimentar (ou fazer uma ‘limonada’ e dar risada num madrugada fria de virada cultural), não era difícil extrair entretenimento (sem igual) nas bizarras e surrealistas passagens musicais que eventualmente rompiam a ausência de diálogos com performances cafonas, como a do protagonista que recorreu a uma cisterna para banhar-se e metamorfoseado num homem-lagarto cantava para a lua, teatrais, no drama coreografado da atriz pornô em forma de mulher-aranha ou extravagantes, com as performances musicais coletivas a la Busby Berkeley.

 Aliás, aos apontamentos metalingüístico na obra do diretor malaio soma-se o existencialismo e a premissa da incomunicabilidade de Antonioni, a escola cômica de Buster Keatone e, em especial nO Sabor da Melancia, o purgar de Vincent Gallo em “Brown Bunny”(2003). Ainda houve um momento tarantinesco com uma cena em que Hsiao-Kang traga o cigarro preso entre os dedos do pé de Shiang-chyi.

 Em meio a tantas alegorias, metáforas, recursos, e evasão progressiva do público durante a sessão, Tsai me convenceu a alternância entre a absurda comédia que transbordava das cenas explícitas e a comoção minimalista no tenro romance que acontecia paralelamente.  

 A questão evocada, acerca da real intimidade ou proximidade entre duas pessoas, desenhada de maneira inicialmente desajeitada e leviana até incomodamente pungente no literal gozo final não deixa de ser uma conferência da inescrutabilidade dos cineastas contemporâneos.

Ativismo ao curry

17/05/2010

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Em Nina’s Heavenly Delights (2006), a diretora Pratibha Parmar, queniana criada em Londres reconhecida por seu ativismo homossexual, constrói um romance lésbico no centro de um enredo gastronômico que se apresenta como uma sobremesa tão elaborada quanto uma salada de frutas.

 Com a morte do pai, Nina retorna a Glasgow três anos após fugir de um casamento arranjado com outra família de descendência indiana que atua no ramo da culinária Taj Mahal. Um a um, ela conhece segredos da família, endossados por  preconceitos étnicos e moralistas, enquanto assume a missão de conquistar o tricampeonato para o restaurante de seu pai em parceria com a namorada do irmão, por quem, entre uma fraterna guerra de farinha ou maliciosa degustação, se apaixona; mas diferente da mágica “química” entre temperos, o romance entre elas é tão saboroso quanto uma cestinha de pão.

 Com um ritmo insosso, especiarias tão exóticas como a repetição do mantra “siga seu coração” e corantes artificiais evocados da subtrama de seu amigo de infância, um travesti afetado e seus menudos que tentam uma participação numa produção Bollywoodyana e o indigesto programa temático que televisiona a disputa da gastronomia indiana em Glasgow, o que “Índia, Amor e outras Delícias” tem de positivo é a funcionalidade de figurar em ‘cardápio’ de filmes tanto de temática Culinária quanto GBLT.