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Sobre misantropia e a Grande Maçã

23/04/2010

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Em seu retorno a Nova Iorque, Woody Allen também retoma seu facsímile no centro da trama com o protagonista deliberadamente alegórico, um físico teórico divorciado após uma frustrada tentativa de suicídio. Boris Yellnikoff entoa as predileções narcisistas do diretor, como a superioridade de Fred Astaire e Beethoven  ao barulhento rock moderno; encarna forçosos maneirismos e divaga para a câmera acerca da estupidez humana ostentando um já batido comportamento antipático e pessimista de uma figura recém saída de tirinha de jornal, como quando se dirige as crianças, seus alunos de xadrez, como amadores cretinos ou zumbis imbecis.

Para personificar seus performáticos solilóquios acerca da casualidade e entropia do cosmos, há outra manobra de Allen ao evocar o ethos do personagem do mesmo Larry David na série Curb Your Enthusiasm, que tem a oferecer “mau humor, hipocondria, mórbidas fixações, raiva recalcada e misantropia” a  jovem loira sulista Melody Celestino (Sra Marylin Manson) fugida para a Grande Maçã e encanta-se pelos discursos de uma persona quase indicada ao Nobel.

A orquestra de esteriótipos e clichês funciona com ocasionais boas linhas na dinâmica do improvável casal até que a mãe e pai de Melody apareçam e sejam instantaneamente reformados pela metrópole, de senhora alcoólatra e crente abandonada pelo marido à artista modernosa num relacionamento a três com outros dois intelectuais amigos de seu esclerótico genro, que, ainda que genioso (e genial?), não impede que ela ssuma uma missão cupido para a filha com um jovem e atraente aspirante a ator.

Com o dado de que o roteiro de Whatever Works(2009) foi escrito na mesma época de Annie Hall, aponta-se a condição irascível do rabugento que habita a alma de Allen há mais de trinta anos e encerra o momento de seu bem elaborado passeios pela austera sofisticação de Match Point(2005) e Cassandra’s Dream(2007) ou a sensualidade de Vicky Cristina (2008) e até a espirituosidade de Scoop(2006) para sua fórmula que (Tudo) pode dar certo exclusivamente para os afficionados pela persona de Woody Allen transbordando durante 90minutos.

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Adam Elliot e suas síndromes.

10/04/2010

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O diretor e roteirista australiano Adam Elliot, da animação “Harvie Krumpet” (2003) premiada com Oscar de melhor curta, retoma sua combinação de fantasia mordaz em claymation (animação feita com moldes de argila) para traçar vinte anos de um improvável amizade no conto sincero e sombrio “Mary and Max”(2009).

Mary é uma menina australiana de 8 anos de idade, solitária, com uma marca de nascença na testa, negligenciada pela mãe alcoólatra e o pai viciado em seu hobby. Certa vez, ela acabou por sortear um nome num livro dos correios e escreveu para um endereço em Nova Iorque para perguntar se os bebês na América também surgem no fundo de canecas de cerveja como sua mãe contou. Em outro continente, o destinatário Max de 40 anos tem em comum com sua nova amiga de correspondência a solidão e a admiração pelo desenho televisivo The Noblits e chocolate.

Na troca de cartas, Mary confidencia detalhes de sua rotina como o bullying que sofre na escola e o conforto que encontra em uma lata de leite condensado enquanto Max revela seus três objetivos na vida: conseguir a coleção completa de bonecos dos Noblits, ter uma fonte de chocolate e encontrar um amigo.

A sombria cenografia compõe o teor melancólico do conteúdo das cartas, das fatalidades, neuroses, feridas, frustrações e desencantos que acompanham os anos seguintes até que a jovem Mary possa dividir com seu amigo um breve momento de sucesso com seu casamento e a publicação de um livro sobre a condição neurológica da qual Max é acometido, a síndrome de Asperger (o protagonista de seu Harvie Krumpet também possuía um transtorno psiquiátrico que moldaria sua vida, no caso síndrome de Tourette), porém as histórias de vida antes independentemente descritas tornaram-se diretamente afetadas mutuamente pela excêntrica amizade de Mary e Max.

Um elemento de repetição e morbidez emanam na segunda parte da animação, acompanhados de elementos mais pesados como ansiedade, suicídio, alcoolismo, morte e abandono e já não há lugar para um peculiar humor que permeava as dificuldades de ambos inicialmente, ainda assim “Mary e Max: Uma amizade Diferente” consegue atingir uma sinceridade ímpar e a dublagem pujante dos atores Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana e a narraçao do comediante australiano Barry Humphries resultam numa obra muito além de um simples stop-motion com belíssima direção de arte, há vida e feridas reais . Escolhido para a noite de abertura de Sundance 2009 é citado ser baseado em fatos reais, e numa entrevista Adam Elliot afirmou ter se inspirado em seu amigo ‘de correspondência’ novaiorquino. Sinistro.

The U.S. vs todo o resto!

02/04/2010

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Membros do governo dos Estados Unidos, advogados e pessoas próximas ao casal Yoko e Lennon, intelectuais como Gore Vidal e Noam Chomsky e alguns líderes ativistas dos anos 70 compõe uma série de depoimentos que agrega o documentário de David Leaf e John Scheinfeld.

The U.S vs John Lennon”(2006) descreve como um músico/artista chegou ao ponto de perturbar o governo Nixon em vigor, ter seus direitos violados por escutas telefônicas ilegais, perseguido pelo FBI e entrou em uma briga de quase cinco anos com as constantes investidas do Serviço de Imigração americano para deportá-lo.

O documentário abre com entrevistas dos Beatles em que destacam o poder da voz de John Lennon e sua plena consciência do alcance de suas palavras e escolha por uma responsabilidade de transmitir uma mensagem acerca da guerra que acontecia no Vietnam ao invés de limitar-se a música. Nesse momento os roteiristas infiltram imagens de jovens soldados mortos, estatísticas e relato de um veterano paraplégico.

Um ponto definitivo na vida de Lennon foi o encontro com a então artista conceitual Yoko Ono e o efeito libertário dessa união para seus ideais. Agregou o tom performático e tentava ilustrar seus conceitos como bagismo e “comunicação total” para os céticos jornalistas que incessantemente acompanhavam o casal, e assumiram uma postura conjunta e exibicionista para transmitir a paz e a relação direta com as novas canções que levava multidões a entoarem “Give peace a chance”, canções que denunciava para os inimigos e conservadores seu comportamento subversivo.

A posterior associação do casal com radicais de movimentos paralelos como Panteras Negras, é contada pelos roteirista relevando um caráter ingênuo de John e o colocam como joguete político dos ativistas dos quais ele financiava a ideologia e outras polêmicas envolvendo o uso de drogas ou elemento negativo para a figura de John Lennon não são tratados. Há certamente um peso do sentimentalismo e complacência de David Leaf e John Scheinfeld.

Como um filme que poderia levantar questões acerca dos maniqueísmos de um governo beligerante e a repercussão frustrada das vozes opositoras de frente ao imperialismo estadunidense nos dias atuais, “Os E.U.A. vs John Lennon” é uma boa saudosista biografia.

Sede de vampiros sedutores

01/04/2010


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Pois os vampiros vieram com tudo mesmo, da série True Blood, passando por essas adaptações de livros, e até mesmo Willem Dafoe e Ethan Hawke protagonizaram um longa com essa temática, Daybreakers(2009), ainda sem previsão de ser lançado no Brasil. E no ano de 2009, vampiros chegaram até Cannes pelas lentes do cultuado Chan-Wook Park, e levou prêmio do Júri por “Sede de Sangue“.

Nessa versão sul coreana, um padre voluntário no desenvolvimento de uma vacina recebe uma transfusão e é o único curado dos sintomas da doença fatal, e acaba atraindo uma legião de fiéis em busca de curas para outras tantas efermidades. Essa é a primeira parte do filme.

Na busca de salvação através do padre milagroso uma mãe procura cura para seu filho acometido de um cancêr, que foi amigo de infância do padrevampiro, e este passa a conviver em sua casa como nos tempos de infância e descobre os prazeres da carne com a esposa do conhecido numa tensão entre o “desespero e a depravação”. Esta é a segunda parte.

Em seguida, Bakjwi/Thirst (2009) passa a ser uma tragicomédia romântica onde os protagonistas tem sede de sangue e precisam se entender como casal, que retoma, nos doces momentos de Mido e Dae-Su de “Oldboy“(2003).

A fita tem cinematografia bem acentuada, divertido, mas arrastasse por entre esses ápices conclusivos sequidos por outra sequência de acontecimentos. Porém, pessoalmente, o ‘defeito’ maior do filme é mesmo a associação vampiresca com uma doença de ascos sintomas quando sou  a favor dos bons e velhos imortais  sedutores e sofisticados, como em “Entrevista com Vampiro” (1994).

Amelia é que era mulher de verdade!

30/03/2010

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Recheado de esmero, “Amelia”(2009) é uma biografia tediosamente morna. A história da aviadora do Kansas que foi a primeira mulher a cruzar o Pacífico e desapareceu durante a empreitada ao redor do mundo, parece ter sido reduzida a uma pequena ficção ordinariamente motivadora com frases de efeito como “quero ser livre” e que o céu é “um lugar bonito, simples, seguro, onde tudo é compreensível”.

A escalação de Hilary Swank foi um acerto, com sua aparência andrógina, os dentes grandes e o mesmo cabelo picotado compõem a figura legendária dos anos 30, mas apesar de sua personificação de Amelia Earheart, o roteiro falhado e sem ritmo apresenta uma protagonista muito esperta e assertiva, inicialmente insegura com seu corpo, a razão de usar calças masculinas, e intimidada pela figura do impassível editor George Putnam(Richard Gere), que posteriormente assume a figura de marido dedicado, complacente e, ao mesmo tempo, um eficiente relações-públicas, a transformando em queridinha da América e ícone de publicidade, emprestando seu nome para linhas de malas, por exemplo.

A própria Amelia também não é consistente, uma vez ousada e perseverante, uma feminista fervorosa, acaba esbanjando arrogância, “sou uma aventureira brilhante”, e teimosia e até imprudente no que diz respeito as condições de segurança em seus vôos.

Uma potencial subtrama, de outra talentosa jovem aviadora ( a “Alice”, Mia Wasikowska) que ameaça o status de Earherat é abruptamente retira de cena para dar lugar a implicações de um caso extraconjugal com o empresário da aviação Gene Vidal (Ewan McGregor), se a motivação era física, a química não funcionou, McGregor está plástico e inexpressivo como um figurante.

As falas beiram o formalismo e os diálogos transbordam em placidez, até mesmo quando seu marido e amante estão sob o mesmo teto, não há tensão. A diretora indiana Mira Nair (do mais recente Nova York, Eu te Amo) entrega um filme sem emoção, composto por repetidas imagens de sua perspectiva aérea como as as savanas africanas, por exemplo, e permeadas por acontecimentos de sua vida pessoal de forma tão morna como citações biográficas pontuadas.

xarope indie

30/03/2010

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Um pequena fábrica de extrato (xarope de amêndoas  para recitas caseiras de bolos e doces) tem como corpo de funcionário estereótipos como: um roqueiro acéfalo conduzindo a empilhadeira, alguns imigrantes latinos que não falam inglês, um caipira com aspirações a gerência, uma dupla de senhoras futriqueiras e queixosas, um gerente impassível e o dono boa-praça, que apesar do sucesso financeiro, logo nos apresenta sua dinâmica pessoal: chegar em casa antes que a mulher vista as calças de moletom, circunstância sentencial para a possibilidade de algum romance.

Assim, quando a esposa desmerece suas investidas pelo programa que vai começar na TV, Joel segue para despejar suas frustrações no bar do seu melhor amigo, Dean, que possui um arsenal de medicações tarja preta e acredita que elas resolvem qualquer problema.

Paralelamente conhecemos  uma jovem que usa sua beleza em pequenos e bem sucedidos trambiques e um acidente em cascata na fábrica, leva a bela golpista (Mila Kunis de That Seventies Show) a tornar-se funcionária temporária de Joel, que divide o dilema entre o morno casamento e o flerte com a nova funcionária no balcão do bar na mesma noite em que aceita as pílulas milagrosas de Dean e o resultado é o plano de contratar um gigolô para seduzir a esposa, se ela o trair primeiro, o caminho está livre para ele sucumbir. Porém o plano, como é de se prever, não sai como o combinado.

Com atmosfera e atores ícones da cena indie como o protagonista Jason Bateman, o “pai da Juno” J.K. Simmons, Beth Grant, o roteirista de diretor Mike Judge ( de Beavis e Butt-Head ) assume “Extract” (2009) com tons de sitcom com direito a convidados ilustres como Gene Simons na pele de um circense advogado do povo e o mainstream Ben Affleck com aparência duvidosa fazendo um papel secundário com o melhor amigo drogado e imaturo de Joel. E a boa e conhecida fórmula triunfa mais uma vez com um bom roteiro leve, composto de pequenos desastrados e divertidos acasos e a presença magnética do elenco.

O milagre das ovelhas e tulipas

29/03/2010


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Tulpan(2008) emerge de um realismo social da singular rotina da vida nômade nas estepes do Cazaquistão, mas, a maneira como este lirismo etnográfico compõe a estória do romântico e lúdico Asa, faz desta produção uma experiência cinematográfica ímpar mais que agradável.

Na cena de abertura, um jovem vestido com uniforme de marinheiro discorre entusiasmadamente sobre os hábitos predatórios de um polvo gigante, para uma platéia nada comovida. Ele está tentando impressionar os pais e por trás de uma cortina, a enigmática jovem Tulpan. Ele está acompanhado de um carismático comerciante e o austero cunhado. A exigente Tulipa é sua única opção de futura esposa no raio de um dia de viagem de carro, e Asa, da forma mais pura e inocente, se apaixona pela garota de quem apenas via as mãos.

Depois de cumprir serviço naval, nosso singelo protagonista está morando com a dedicada irmã e seus três filhos pequenos, que ganham espaço merecidíssimo no longa, e tenta desastradamente seguir os passos de seu marido, um pastor de ovelhas. A rotina árida e a paisagem desolada, diferente de seu amigo que está sempre tentando convencer Asa a procurar emprego na cidade,  é cenário para seu oásis, com um grande rebanho, uma esposa e uma yurt (espécie de tenta reforçada) bem decorada sob o céu estrelado da estepe cazaquistanesa.

Asa é um rapaz doce, demonstra-se um romântico irrecuperável sempre pensando em Tulpan durante os intervalos em que tenta ajudar o cunhado com o problema que tem assolado a família, as crias natimortas do rebanho, resultada em uma cena bela e visceral em Asa assiste uma ovelha durante um difícil parto, de forma documental como na produção alemã de 2003 rodada na Mongólia Camelos Também Choram, mas a presença e a pureza de Asa constróem na tela um pequeno e cativante milagre, são esses milagres cotidianos captados tão carinhosamente pelas lentes de Sergei Dvortsevoy que pode ser estendido para traduzir essa modesta e ao mesmo tempo grandiosa fita. Levou Un Certain Regard em Cannes 2008.