Um violoncelista desempregado retorna a sua cidade natal e esconde da esposa e conhecidos sua atual atividade (bem) remunerada. Em A Partida (2008), Daigo Kobayashi começa a trabalhar como assistente de um preparador funerário, profissional que veste o defunto para o velório e diante do luto alheio, em sutilezas, descobre um certo orgulho e auto satisfaçao no idiossincrático cerimonial.
Na espera de um denso e linear drama japonês, o longa pode ser frustrante pelo viés pastelao que insiste em caras e bocas novelescos do protagonista e sua robótica ‘housewife’. Nao é de todo mal, a fotografia remete o personagem nokanshi a uma espécie de Amelie Poulain japonês e o diretor Yôjirô Takita consegue criar momentos tenros e sutis apreciáveis ainda que o espaço entre esses momentos seja enfadonho.
Talvez a plasticidade no tratamento das relaçoes e as pinceladas de humor ingênuo que desviam Okuribito da fatalidade densa de se falar sobre morte, luto e perda tenha refrescado alguns espectadores desta fita, premiada com o Oscar de Melhor filme Estrangeiro 2009, mas a performance televisiva optada nao é suficiente para agradar os amantes dos dramas japoneses críveis e orgânicos.
Anders Thomas Jenses foi supervisor do roteiro de O Anticristo (2009), do seu conterrâneo Lars Von Trier, e assina ele próprio a adaptaçao para os cinemas de A Duquesa (2008). Em 2005 escreveu e dirigiu “Adams æbler“, coprotagonizado por Mads Mikkelsen, vilao Le Chiffre de Casino Royale (2006) e amante de Coco Chanel em Coco e Igor Stravinsky(2009).
Sempre soberbo, Mads interpreta um religiosamente cego e alienado vigário encarregado de supervisar ex-detentos num programa de liberdade condicional, que recebe um neonazista cuja a meta em sua permanencia é preprarar um bolo com os vistosos frutos da macieira da paróquia. Desde o primeiro dia, Adam é confrontado pelo diabo em sua missao ao passo que confronta violentamente o comportamento escapista e ingênuo do padre.
Optando pela gratuidade da violência e a mínima existência de tato nas relaçoes interpessoais, Anders expoe o inconveniente em diálogos ágeis e absurdos recheados de humor negro. O tom surpreendentemente crível é o diferencial de “Entre o Bem e o Mal“, que num ritmo linear e atmosfera bucólica mantém o espectador num patamar seguro que depois de abordar de forma explícita temas como pedofilia, paralisia cerebral, suicídio, holocausto, negaçao, redençao, cancêr e morte deixa a confortável sensaçao de filme ‘fofo’. Deliciosamente incorreto.
Lars Von Trier tem originalidade e autoria, num momento em que a quantidade de fitas produzidas se multiplica é difícil que a qualidade acompanhe. Houve uma época em que o roteiro tinha o peso da minha preferência pessoal, mas depois de alguns anos e muitos filmes, uma maneira refrescante e ousada de se contar uma estória é o que tem me deleitado acima de outros critérios cinematográficos. E neste momento eu vibro arrepiada e absorta com “O Anticristo“, em que muito se falou de cenas chocantes e gratuitas de sexo e violência desde sua apresentaçao em Cannes este ano. Sim, o longa tem cenas fortes e intensas, porém gratuidade nao houve, o oposto, sublimam em força, beleza e verve. Em 6 segmentos, “Antichrist” nao deixa uma pausa para respirar, é maravilhamento ou perplexidade.
O Prólogo, momento que antecede a morte do filho dos protagonistas, é certamente uma das coisas mais belas que já vi, uma obra de arte. Os quatro capítulos posteriores seguem uma estética distinta: Grief, Pain (Chaos Reigns), Despair (Gynocide) e The Three Beggars contam o marido psicanalista trabalhando para curar o desesperador luto da esposa a partir seu retorno para casa depois de semanas a fio sedada em um hospital, diferentes e melindrosas abordagens psicanaliticas sao descritas de forma poética, histérica e desconcertante e atingem o auge no momento em que o casal liberta a oculta e sinistra psique da personagem de Charlotte Gainsbourg. Willem Dafoe a acompanha em sua densa e insigne interpretaçao, e deixa sobreviente o Éden no delicado e redentor Epílogo.
Os diferentes recursos técnicos e estéticos tao pouco podem ser reduzidos ao experimental, sao eles que integram em sinestesia e profundidade a obscuridade do instintivo e do psicológico humano: a ansiedade, a culpa, o niilismo, a mitologia, a fecundidade, a perda, a libido, a sobrevivência, a tortura, a tragédia intrínseca da natureza. Arrebatador.
Sob perfeito tagline de “Luis Bunuel’s Masterpiece of Erotica!“, o substancioso e fascinante Belle de Jour (1967).
Numa narrativa inquietante, a jovem Catherine Deneuve, ímpar na pele de Severine, é esposa de um cirurgiao a quem ama mas rejeita sexualmente enquanto nutre pensamentos eróticos e escapistas, até que sua inquietude e insatisfaçao a conduzem diariamente a uma maison no período em que seu marido está no trabalho: A Bela da Tarde, altergo realizador de suas fantasias.
Entre seus clientes um industrial masoquista, um asiático sodomista, um duque necrófilo, e o jovem marginal Marcel, personagem que seria um antecessor de Alex Delarge, exceto pela misoginia do protagonista de Laranja Mecanica (1971), mas igualmente contraventor e volátil que se apaixona doentiamente por Belle de Jour. Esse automatismo surrealista de Marcel, ainda que de forma desesperadoramente violenta e gratuita, acaba por sublimar a liberdade de Severine e salvar seu casamento.
Dois empresários procuram um matador de aluguel para executar um terceiro sócio, na fugaz ilusao de que suas maos estao limpas. Livram-se do fardo e ganham a presença constante e sufocante daquele que lhes mostrara que a consciencia é, em si, julgamento e sentença.
Marçal Aquino, autor do livro homonimo, é o ponto alto do longa, que de forma angustiante permea o zeitgeist da metropole e encerra a trama concluindo os círculos e vícios pessoais dos agentes que manufaturam o sitema metropolitano sobre si. O Invasor, pelas lentes de Beto Brant apresenta sem ousadia uma fotografia e densidade bem conhecidas e identificáveis nas fitas latinoamericanas. O longa de 2001 foi premiado em Sundance no ano seguinte na categoria de melhor filme latino-americano.
Paulo Miklos reina interpretando o personagem invasor de forma esteriotipada mas crível. E concordo com Aristeu Araújo da revista Moviola “Marcos Ricca [que interpreta um dos sócios] está arrebatador”, ainda que seus coadjuvantes nao o acompanhem.

O já conhecido e ovacionado Michel Gondry, juntou-se a outro diretor francês, Leos Carax e ao sul coreano Joon-ho (diretor de “O Hospedeiro”) para escrever e dirigir uma verdadeira bomba!.
Gondry é responsável pelo morno segmento Interior Design, onde uma garota sentindo-se sozinha em seu relacionamento, acaba-se por transformar-se “em uma cadeira”. O bizarro (no mau sentido) e gratuito segmento de Carax mostra um caucasiano desgrenhado saindo dos bueiros e indo de encontro a prisão por seu comportamento terrosrista(!), dá vontade de sair da sala e acaba com qualquer ânimo que sobrasse para Shaking Tokyo, do diretor coreano, onde um recluso apaixona-se por uma entregadora de pizza que desmaia a sua porta durante um terremoto. Na verdade os seguimentos ímpares apresentam sintonia, falam de solidão na metrópole de forma sensível e abstrata, o problema é a logística de ser o seguimento posterior a Merde, que esgota psicologicamente e faz com que não apreciemos Shaking Tokyo como deveríamos.
“Tokyo” foi descrito como “permeado pelo bizarro, ou melhor, pelo fantástico”. Mas acaba mesmo é por provar que 3 bons diretores podem fazer um filme ruim.
No vestígio de clima de Mostra inauguro aqui no blog a categoria ‘Filmes da Minha Vida’. Essa semana reassisti uma das fitas mais carimbadas na minha ficha da locadora nos anos 90, uma que na capa tinham um cara segurando um cadelabro atraves de um buraco na barriga de uma mulher de branco e outra de vermelho com pescoço virado. Eram Bruce Willis, Goldie Hawn e Meryl Streep, os protagonistas de Death becomes Her (1992).
Depois de perder o noivo para a amiga, Helen reaparece deslumbrante e retoma o affair com o Ernest e, juntos, planejam assassinar a esposa. Enquanto Madeline só está preocupada em desvendar o mistério da beleza e jovialidade da rival. O segredo do elixir, comercializado pela exótica e desnuda Isabella Rossellini acabará por condenar as duas a dependerem uma da outra pela eternidade.
A comédia permeada de humor negro, ainda que pela enésima vez, manteve a credibilidade dos divertidíssimos efeitos especias que tanto me cativaram quando eu tinha dez anos de idade e que, aliás, receberam o BAFTA e Oscar em 93 nesta categoria.
Aos 73 anos, o diretor inglês Ken Loach apresenta um filme delicioso de assistir; transitando entre a depressão, a violência, a lealdade, os laços de parentesco, expectativas e desilusões, complacência e redenção com incrível frescor. As asperezas e as “lembranças mais bonitas” da vida são traduzidas por Loach com ritmo equilibrado sem excesso de recursos cinematográficos para o induzir o espectador e permite os créditos de “Looking for Eric“(2009) para o roteiro de Paul Laverty.
A trama é bem elaborada, despretensiosa e sem fatalidade de gênero. Refrescante e original, faz rir, emocionar, envolver-se, apreciar, e refletir; refletir sobre seu próprio cotidiano, escolhas, erros e acertos: é impossível não reponder instantâneamente à retóricas como “Quando foi a última vez que você foi feliz?” e “Você já fez algo que se envergonhasse ?”, assim como outras máximas do personagem Eric Cantona, interpretado graciosamente pelo próprio jogador de futebol.
Cantona aparece como ícone de autoconfiança, sucesso e realização pessoal para o protagonista: um ex-dançarino de rock que abandona sua primeira mulher com um bebê quando jovem e que, anos após ser deixado pela segunda esposa, encontra-se frustrado com seu emprego de carteiro e a permissividade cultivada pelos dois enteados. Eric tem como momentos escapistas da mediocridade e insatisfação, as vibrantes partidas de futebol, a euforia e extase que seu ídolo francês proporcionou em sua brilhante passagem pelo Manchester United. O filme alterna ficção com os belos lances reais executados por Cantona, o que deleita espectadores amantes do futebol e deixa o filme mais dinâmico e fácil de gostar.
A partir daí Cantona é um ‘personal motivador’ com suas máximas, frases de efeito, e toda cartilha que poderia ser enxugada de qualquer e todo livro de autoajuda. Começando pelas mais simples decisões como barbear-se e a cada passo entrar mais fundo nas questões individuais escondidas, guardadas ou bloqueadas e libertando esses fantasmas e recuperar o poder de mudar, ao menos, o universo pessoal. no caso de Eric, a relação reconstruída com a mãe de sua filha, a redenção de seus enteados, os riscos assumidos que se tornam possibilidades e a valorização e lealdade dos amigos próximos. Saímos da sessão entretidos e certamente mais otimistas.
Quem conferir o longa pode aguardar nos créditos finais a verídica “parábola das gaivotas” evocada pelo ex-jogador numa coletiva de imprensa, fato que inspirou sagazmente o roteirista indiano.
Ex advogado quer honorários, o pai exige pensão, os irmãos estão a vender homenagens, todos continuam, postumamente, a sugar o talento de Michael Jackson, mas se essa era exclusivamente a intenção de Kenny Ortega com “This Is It” não transpareceu.
Ortega foi o coreógrafo de Dirty Dancing(1987) a High School Musical 3 (2008) e premiado por clipes como Material Girl da Madonna, criou o design de “Dangerous World”, que passou por São Paulo em 93 (eu estive lá), e “History World” (1996-97), e repetia a parceria com Michael no que seria sua derradeira turnê. Os ensaios e preparações para as apresentações, porém, documentados pela produção, da escolha dos ubber dançarinos aos testes pirotecnicos, e claro, bastidores, viraram um filme. Dirigido por Ortega, “This Is It” é essencialmente um presente para os fãs.
A aparência frágil e cadavérica de Michael Jackson quase impressiona não fosse o poder da sua voz e o magnetismo de suas coreografias. De temperamento maestral, Michael aparece completamente envolvido com todo e cada aspecto, cada detalhe, sempre preocupado em proporcionar ao público a sublime e grandiosa “experiência do escapismo”, e não aceita menos que a perfeição, ao mesmo tempo, uma figura doce, altruísta, envolvida com as pessoas que os cercam, dos bailarinos aos instrumentistas.
No filme pode-se conferir desde os aparatos mecânico do palco, de elevadores, impulsores, uma gigante aranha mecânica, um imenso trator, a já conhecida grua que leva Michael por cima da platéia em “Beat It”, as produções cinematográficas que acompanhariam “Thriller”, “Smooth Criminal” e “They Don’t Care about Us”, a incrível sincronia de suas coreografias, a parte do show dedicada ao ‘Jackson’s Five’, e entre outras tantas cenas de bastidores, particularmente, uma, em que o diretor se preocupa como marcar um momento de Michael com a platéia, ele diz “eu vou sentir”.
“This Is It” é uma experiência e tanto: mérito absoluto do protagonista.
Mark Waters, que depois de dirigir pérolas como “Cinco Evas E Um Adão”, fracasso com Freddie Prinze Jr, e os cafonérrimos: remake de Freak Friday e Mean Girls com Lindsay Lohan, procurou refinar-se no gênero das comédias romanticas e também em seu casting, diga-se de passagem, obtendo sucesso com “Just Like Heaven” com Reese Witherspoon e Mark Ruffalo e “Minhas adoráveis ex Namoradas” Matthew McConaughey. E com toda essa bagagem apostou na produção de “500 Dias com Ela” que é o début do diretor Marc Webb em longa metragens.
Webb é conhecido por seu trabalho como diretor musical, assina, por exemplo, dvds do Green Day, 3 Doors Down e tantas outras bandas que vão de Santana a My Chemical Romance, e este é o know-how que traz para o filme: uma trilha sonora recheada de artista cultuados como: Regina Spektor, The Smiths, Feist, The Clash, Doves, She&Him, Wolfmother, a primeira dama francesa Carla Bruni e até “She’s like the wind” de Patrick Swayze .
“500 Dias com Ela” conta a história de Tom (Joseph Gordon Levitt), que atraves de flashbacks e flashfowards tenta entender o que deu errado em seu relacionamento com Summer (Zooey Deschanel ). Desde sua exibição na Seleçao Oficial de Sundance 2009, a comédia romântica tem sido bastante elogiada pela crítica, assim como a química entre os protagonistas, que pode ser conferida no clipe acima: “Why Do You Let Me Stay Here?” da banda She & Him.
Já no circuito “Coco Before Chanel” traz a musa cult Amelie Poulain aka Audrey Tautou na pele de Grabrielle “Coco” Chanel antes da fama. O filme mostra da infância a sua juventude como cantora de cabaré bem como seu envolvimento com Étienne Balsan e o jogador de pólo Arthur “Boy” Capel, ambos relacionamentos determinantes para que a carreira de Gabrielle seguisse para a moda.
Outro longa figura na programação da Mostra “Coco Chanel & Igor Stravinsky”, que foi escolhido para encerrar o Festival de Cannes este ano, narra outro momento na vida de Chanel: seu complicado com o (casado) compositor russo Igor Stravinsky.
Os cinéfilos fashionistas também podem vislumbrar-se mais da grife francesa em “Los Abrazos Rotos”, do Almodovar, onde todo o figurino da personagem de Penélope Cruz é composto por peças de diversas coleções da Chanel. Não é a primeira vez que o diretor espanhol “desfila” a grife: em De Salto Alto e Tudo Sobre Minha Mãe, as personagens fazem uso de bróches, bolsas, vestidos, sem faltar o icônico tailleur de tweed da Chanel.
A atriz francesa Fanny Ardant brilhou em 2002 protagonizando com Catherine Deneuve e Isabelle Huppert o premiado ”8 Femmes” e interpretando Maria Callas em “Callas Forever” mas são muitas as fitas em que atuou desde seu debut em 76. Fanny foi companheira de Truffaut, com quem teve uma filha dois anos antes da morte do cineasta francês, que abordava em seus filmes os temas paixão, a mulher, infância e fidelidade; temas que Ardant retoma em seu primeiro longa “Cendres et Sang“, assinando roteiro e direção.
O filme conta a estória de uma viúva romêna exilada em Marselha com os três filhos que aceita o convite para o casamento da sobrinha apesar dos receios e segredos do passado, e sua volta desencadeia uma série de ritos e ódios enraizados entre três famílias rivais, e o reencontro acaba sendo trágico para todos.
O tema de clãs, tradições e rituais tão locais poderiam afastar o espectador não fosse a excepcional presença da protagonista Judith, uma mulher viceralmente passional e tem em cada filho uma extensão de sua personalidade, a destemência em Pashko, o carisma em Ismael e sagacidade na pequena Mira. E as descendências neste romance original ficam um pouco confusas no meio do filme mas a apreciação dos planos e a vivacidade internas das personagens contidas pelas formalidades sobressai, não creio que seja imaturidade de Ardant, mas uma assinatura, tanto que nos créditos finais a genealogia de cada clã é graficamente desenhada.
Nos créditos iniciais, a fotografia preto e branco casou com o maquinário da cena, era promessa de um filme excelente: um operário, em meio a fumaças, ruídos e cinzas prende a mão e perde alguns dedos.
A cena seguinte segue sendo ponto alto do filme: operários durante o almoço comentam a intencionalidade (ou não) da amputação voluntária pela indenização. Ouve-se os comentários mas não se vê rosto algum: o plano horizontal são as mãos sobre as bandejas e os movimentos usuais de uma refeição, que funcionou muito bem. Mas num segundo momento, esse recurso de descentralizar a tomada causa constrangimento ao mostrar um homem com uma britadeira sacudindo enquanto o casal protagonista conversa no canto da tela, e acaba a áspera beleza por aí.
O ‘resto’ do filme trata a estória de Reza, operário que foi deixado pela esposa e sentenciado a pagar pelo divórcio a quantia recebida pelo dote; ele então, sem saída e sem recurso algum para conseguir o dinheiro, ao encontrar com o funcionário indenizado, tem uma idéia nada saudável.
Relativamente curto, ”O Homem que comia Cerejas” (Irã/2009)é recheado de longas cenas que acompanham pedaços simplórios da rotina dos recém divorciados: em três delas Reza prepara desanimadamente seu jantar sempre fritando ovos e comendo enlatados, são em demasia monótonas. Mas as cerejas posteriormente aparecem, em cores.
Participa da Mostra na categoria “Perspectiva Internacional” e se dependende exclusivamente da minha nota no final da sessão não levava.
Pois os vampiros vieram com tudo mesmo, da série True Blood, passando por essas adaptações de livros, e até meu muso Willem Dafoe está rodando um filme com Ethan Hawke com essa temática. E este ano, vampiros chegaram a Cannes onde Chan-Wook Park levou prêmio do Juri por “Bakjwi“.
Nessa versão sul coreana um padre voluntário no desenvolvimento de uma vacina recebe uma transfusão e é curado dos sintomas da doença mortal atraindo uma legião de fiéis em busca de cura. Essa é a primeira parte do filme. Na busca de salvação através do padre milagroso uma mãe procura cura para seu filho, que foi amigo de infância do padrevampiro, e este passa a conviver em sua casa e descobre os prazeres da carne com a esposa do conhecido numa tensão entre o “desespero e a depravação”. Esta é a segunda parte. Depois, o filme passa a ser uma tragicomédia romântica onde os protagonistas tem sede de sangue e precisam se entender como casal, que retoma, nos doces momentos, Mido e Dae-Su de “Oldboy“(2003).
O filme é muito bonito, divertido, mas longo, e esses ápices conclusivos cansam, quando se pensa ser o final do longa começa outra sequencia de acontecimentos. Mas, pessoalmente, o ’defeito’ maior do filme é mesmo a associação vampiresca com uma doença de sintomas nojentos, quando sou mais a favor dos vampiros sedutores e sofisticados, como no bom e velho “Entrevista com Vampiro“ (1994).
Além de marido de Kate Winslet, foi o diretor do ovacionado ”Beleza Americana“(1999), que ganhou status obra-prima ao retratar o ’sonho americano’; bem isso é feito em grande parte dos blockbusters, mas o que se veria depois é que esse efeito ‘cult’ é a assinatura de Sam Mendes.
“Soldado Anônimo“(2005) também não é apenas um filme de guerra, mas um polêmico retrato dos jovens soldados enviados a lugares inóspitos sem entender contra o que estão lutando e pelas lentes de Mendes sobrevivem à hostilidade munidos de humor negro e o sarcasmo. O mesmo efeito salta em “Estrada para Perdição“(2002) e “Foi Apenas um Sonho“(2008), transformar roteiros medianos em filmes ‘cult’.
Não é diferente em “Distante Nós Vamos“(2009), onde um casal bazalquiano sem sólidas conquistas profissionais e pessoais estão esperando seu primeiro filho. E na busca de amigos ou parentes para dividirem essa experiência, viajam para algumas cidades e descobrem as idissincrasias de outras famílias ao passo que descobrem a si mesmos como uma própria.
Com rostos bem conhecido do grande público, como Jeff Daniels, Maggie Gyllenhaal, Jim Gaffigan, Maya Rudolph, o filme é recheado de clichês e esteriótipos mas que acabam tendo toda graça, leveza e ‘intelectualismo’ que só o diretor é capaz de transformar.
Numa sessão de sábado a noite lotada, o diretor/roteirista e o roteirsta/produtor apresentaram “Amor en Tránsito”, que não diria ser (apenas) o primeiro longa de Lucas Blanco (a cara do Andy Garcia, na imagem a cima dirigindo a atriz Verónica Pelaccini), e tive oportunidade de dizer isto a ele após a sessão.
Filme argentino é sempre sinônimo de sensibilidade, filmagens internas, romances e relações(e dramas) interpessoais tratados com delicadeza e envolvimento particulares. Neste caso, Blanco podia facilmente justificar as internas com a temática intimista, mas contou que são mais baratas mesmo. Ainda assim, apesar de excessivamente movimentadas na primeira parte do filme, essas tomadas dão uma assinatura ímpar a história de quatro personagens, dois homens e duas mulheres que chegando ou partindo de Buenos Aires envolvem-se em romances intensos e de futuro incerto.
O aeroporto da capital argentina é o tabuleiro onde as ‘peças’ são apresentadas e as partidas marcadas dão tensão as relações desenvolvidas. Os excelentes diálogos são outro ponto alto. Uma reviravolta une as histórias contadas paralelamente de forma a não confundir nem direcionar.
“Amor em Trânsito” é, de fato, uma passagem, uma viagem, um breve momento na vida dessas quatro pessoas sem encerrar as opções de felicidade ou fuga. O fim do filme é o início do tabuleiro, e a mesma narração no final é recebida com outra (mais reflexiva) perspectiva. Fiquei encantada.
O polonês Tomasz E. Rudzik teve a inspiração para filme de sua experiência pessoal morando em blocos de muitos apartamentos na Alemanha, quando despertou para a quebra do individualista desinteresse pelos tantos rostos e expressões encontradas no subir e descer de um elevador.
Em “O Bloco dos Desesperados“, as lentes acompanham (em diferente ‘timming’) a vida de três moradores estrangeiros em sua busca pessoal por algum tipo de aceitação, seus estratagemas e sensações causados por essa ânsia (instantaneamente identificável) de conectar-se: uma romena evoca os mandamentos na tentativa de obter uma resposta divina, um jovem chinês apaixona-se por sua rebelde aluna particular e vindo da Letónia um surdo-mudo propõe a uma garota passar um dia inteiro juntos sem dizer uma palavra.
Uma festa reúne os moradores em seus momentos de maior frustação e funciona como subterfúgio, é o ápice dramático do filme, mas acompanhado da fugacidade desse momento aparece a possibilidade de redenção, ainda que sem muito otimismo, mais no estilo “a vida segue”.
Tratar de dramas fortes sob uma perspectiva serena é o mérito maior de Tomasz, além de excelente fotografia e trilha que acompanham a densidade, sutileza e beleza de ”Desperados On The Block”.
Essa é a cena inicial do filme: Jack White num ambiente bucólico munido de uma par de pregos, uma garrafa de vidro, um pedaço de madeira, fio metálico e um amplificador improvisa um instrumento e dali tira um som e lança: “quem disse que você precisa comprar uma guitarra?”
No documentário “A Todo Volume” Davis Guggenheim explora as raízes musicais, o início da carreira, as predileções e estilos pessoais dos guitarristas do Led Zepelin, U2 e White Stripes e promove um encontro entre os músicos, com a proposta de falar de guitarras elétricas.
O veterano Jimmy Page chama de “guitarra intervention” o fato de antigos proprietários terem deixado uma guitarra na casa para onde sua família mudou quando jovem. Ainda sem muito conhecimento teórico, Jimmy chegou a se apresentar em um programa de tv fazendo skiffle ( melodias simples e rápidas, popular na década de 50, parecido com rockabilly), e quando o apresentador pergunta se ele pretende ser um astro do rock quando crescer, Jimmy responde que quer ser biólogo. Em outro momento fala da necessidade de “Stairway to Heaven” de uma guitarra de dois braços , uma só para o solo.
The Edge aparece como o mais nerd no que diz respeito a processadores elétricos e o aparato de hardware envolvido. Aos 14 anos fez uma guitarra do zero, do talhar a madeira ao jogo de ímã “Não era a melhor guitarra do mundo, mas funcionava”. O guitarrista volta ao prédio de ciências da escola onde se reunia com os outros integrantes do U2, e fala da composição de “Sunday, Bloody Sunday”.
Jack White coloca um vinil de blues, apenas voz e palmas, e certifica a atitude rock’n roll daquela que classifica como sua “canção preferida”: “um homem contra o mundo”. Jack improvisa, para fazer música é necessário conflito e paixão, como o blues, é o mais artesanal dos três guitarristas. Aparece fazendo solo com os dedos sangrandos numa apresentação do Raconteurs.
O documentário, muito bem executado e editado, permea a história pessoal e cenas do encontro dos três tocando juntos e trocando experiências. Dá vontade de ficar por ali curtindo por no mínimo mais duas horas.
O título, o idioma, a edição, o protagonista, roteirista e diretor de “Eu Matei Minha Mãe“(2009) são ‘franceses’ de Quebec, mas isso realmente é só um detalhe. Aos 20 anos Xavier Dolan apresenta seu primeiro longa e tem talento, de sobra.
O filme conta o desprezo do jovem Hubert pela mãe, o estilo cafona, a mediocridade intelectual e seus trejeitos sufocam o jovem que se refugia na casa do namorado e de sua descolada mãe, que namora caras mais novos e aprova o relacionamento do filho com Hubert.
Dolan, entre mostrar o que sabe fazer e a sede de encontrar uma assinatura pessoal, acaba por sobrecarregar o filme com diferente recursos cinematográficos e fazer uma fita tão burlesca quanto a decoração kitsch de sua mãe. Mas funciona, tanto que levou 3 prêmios em Cannes este ano.
O longa é permeado por trechos de cunho documental em preto-e-branco onde Hubert fala de seu amor e ódio pela progenitora, também usa referências literárias na forma de trechos escritos na tela ao invés da narração, cenas freudianas em que corre atrás da mãe vestida de noiva, pedaços de filmes caseiros de quando era pequeno, sequencias de imagens dos acessórios e objetos decorativos da casa onde vive com ela para igualmente sobrecarregar o expectador, uma clássica cena em câmera lenta na pista de uma boate e outra de sexo, tintas e pincéis ao som de Vive La Fete. Parece muita coisa, e é, mas todos esses artifícios são muito bem executados e concedem igualmente força e beleza ao resultado final.
Paul Giamatti ganhou o público dos Festivais depois de sua participação em Sideways que entre outros, conquistou no Oscar e BAFTA, prêmios de melhor roteiro adaptado. Firmou sua popularidade com os cinéfilos após protagonizar o capcioso “Lady in the Water” de M. Night Shyamalan em 2006, e parece ter gostado da experiência.
Agora, estrelando (outra) comédia metafísica, o personagem de Paul é um ator que, paralisado pela ansiedade depara-se com uma promissora empresa em pleno artigo da New Yorker, cuja auspiciosa tecnologia oferece alívio para os pesares da existência humana [a la Lacuna Inc.*]. Paul recorre ao laboratório Soul Storage, e se vê envolvido num estratagema onde sua própria alma é contrabandeada por uma atriz russa, esposa do chefe da máfia do “Cold Souls”.
Diretora de dois prévios curtas, Sophie Barthes faz sua estréia em longametragens após ser selecionada em 2007 para um laboratório de roteiro e direção em Sundance com o projeto de “Eu, Ela e Minha Alma”: que resulta no limiar do humor inexpressivo, e entre a realidade e fantasia de Barthes facilmente reconhecemos elementos de Charlie Kaufman.
Depois dos posts do “Bruce Willis do Egito” e do “Forrest Gump made in Japan”, o ator Abhay Deol de Oye Lucky! Lucky Oye! (2008) é o “Mark Ruffalo” indiano”(!)
Abhay interpreta o protagonista Lucky, figura carismática e sociavél que conquista pelo jeito simples e uma labia sempre sofisticada e afiada. Baseado na verídica história de Lucky Singh, o filme mostra a adolescencia, a tragicômico segundo casamento do pai, sua associação com o amigo Gogi numa carreira de furtos e contrabando, seu romance com a correta Sonal, suas incriveis fugas da polícia.
O plano de fundo um fictício programa sensasionalista indiano sobre grandes e controversas figuras do mundo do crime contando a trajetória dos roubos de Lucky, que termina sendo traído pelo parceiro, quando o filme já está quase apático e os créditos finais em nada parecem com a frenesi inicial cheia de recursos, brilho e musicalidade.
Mas além do jeito doce (Mark Ruffalo) de ser de Lucky, os primeiros dois terços valem muito a pena, a começar por uma, dita, abertura inicial, uma ode a Bollywood, cores, cenários, figurinos kitsch, os acessórios mil, a trilha contagiante que faz mexer as pernas durante quase todo tempo num ritmo ágil e caloroso do enredo, além do recurso usado duas ou tres vezes de resumir alguns acontecimentos com divertidas sequências de fotografias, que sustenta a agilidade e riqueza visual de ”Oye Lucky! Lucky Oye!” .
“White on Rice” é quase como um “Forrest Gump” sendo dirigido por Wes Anderson( “Rushmore“(1998), “Os Excêntricos Tenenbaums” (2001), “A Vida Aquática de Steve Zissou“(2004) e “O expresso Darjeeling“(2007). Com o melhor dessas duas referências.
A trilha, a fotografia, a atmosfera lúdica dos filmes de Anderson são identificadas desde os créditos iniciais e sustenta ao longo do filme, que pode ser categorizado como comédia ou até comédia romântica, por tratar as personagens com delicadeza e carinho e os dramas internos nunca são explorados apelativamente, sempre muito sutilmente, mas o roteirista e diretor de “White on Rice”, Dave Boyle, traz sim uma assinatura sua, verificada já na cena inicial com a família reunida, os lances de câmera são ‘redondos’, quase fluindo, além de ser ainda mais acentuado no pueril, e no otimismo, sem acentuar ou julgar qualquer que seja o vício de comportamento de cada personagem.
O Tom Hanks de Boyle, um imigrante de 40 anos, que após o divórcio no Japão, vai morar com a irmã e o cunhado nos EUA, dividindo o beliche com seu introspectivo e prodígio sobrinho e 10 anos. O que para o protagonista não causa nenhum ferimento em seu ego. Inocente, sonhador, e sem finesse social alguma, Jimmy cativa por sua pureza e espontaneidade, e igualmente diverte. O elenco todo é igualmente tratado com muito respeito e profundidade em suas ânsias existenciais.
Tradução do título à parte, ”Como Unha e Carne” é um filme indie, sutil, engraçado e feito por gente grande, no que diz respeito a qualidade, conteúdo e o belo resultado.
“Ibrahim Labyad”(2009) é uma experiência incômoda e ainda assim a idiossincrasia do Cairo deixa o filme muito belo. Três referências permeiam o filme, segundo longa do diretor egípcio Marwan Hamed: “Cidade de Deus”, “A Paixão de Cristo” e “Duro de Matar”. E funciona.
Como no brasileiro de Meireles, explora os desmembramentos no processo de favelização: a ilegalidade, as hierarquias particulares, a selvageria do ‘judiciário e executivo’ marginais, o protecionismo dessa população aos criminosos. Indigestas sequências de violência explícita deixam a “A Paixão..” pra trás; corpos sendo cortados, surrados, perfurados, queimados, torturados, ossos quebrados, um balé de agressões onde maior que a repulsa é o mérito pela sincronia, maquiagem e edição. E além das ótimas longas cenas de perseguição, que são bem valorizadas na primeira parte do filme, o protagonista, um Bruce Willis ‘from’ Egito, executor e certamente alvo de tanta brutalidade, resiste sobrehumanamente. E é dito ser baseado em fatos reais (!).
O filme perde um pouco a adrenalina na segunda metade mas retoma apoteóticamente no sangrento final, a trama pode ser comparada a de uma novela, o enlance do protagonista e a canastrice na atuação do vilão por exemplo, mas sigo defendendo o “bom e bizarro” conjunto do parágrafo anterior que o Hamed integra com propriedade.
* Marwan Hamed foi assitente dos premiados diretores egípios Samir Seif, Daoud Abdelsayed e Khairy Beshara; dirigiu os curtas Cairo (1997), End of the World (1998), Abul el Rish (1999), El Sheikh Sheikha (1999) e Lilly (2001), vencedor do prêmio do público no Festival de Clermont-Ferrand, maior festival internacional de curta metragem do mundo. Também participou do primeiro campus de talentos do Festival de Berlim, em 2003. O primeiro longa do cineasta Marwan Hamed foi considerado o filme mais caro da história do cinema egípcio. Baseado no romance de Alaa Al Aswani, best-seller no Egito, “O Edifício Yacoubian”(2006), venceu de Melhor Filme nos Festivais de Tribeca, Nova York e Montreal e, apresentado na 30ª Mostra de SP, recebeu Prêmio do Júri de melhor ator para Adel Iman. Já apresentava a temática violenta ao tratar de corrupção, sexo e tortura.

O artista plástico britânico Marc Pierce tinha uma idéia na cabeça, voluntários angariados através do Facebook, apenas uma câmera na mão ( a segunda quebrou), e o equivalente a US$ 74: “Nós compramos um pé-de-cabra e uns rolos de fita. Compramos também chá e café, para manter os zumbis bem dispostos durante as filmagens”.
Exibido durante um festival de terror no País de Gales onde seus organizadores o recomendaram para um agente, chegou com uma sessão vazia em Cannes, mas causou burburinho suficiente para uma oferta de distribuição do filme na Grã-Bretanha. “Colin” mostra a perspectiva do zumbi em sua nova condição trôpega, e sua irmã, que o leva para casa na tentativa de ativar alguma memória afetiva para fazê-lo voltar ao normal.
Pierce como ator é um ótimo diretor. Isso diz quase tudo sobre o filme. Mas as críticas, algumas cenas (realmente) sem nexo, a grande maioria delas desnecessariamente longas e monótonas, a péssima atuação generalizada (desculpe mas o ‘elenco’ faz parecer semi-impossivel recriar os trejeitos de um semimorto), parecem perder a força no momento em que se pensa dizer “eu faria melhor”: o mérito de Pierce é exclusivamente esse, ele, de fato, o fez; bom ou ruim.

Passado o Festival do Rio e repescagem ainda mais proveitosa, é preciso eleger o filme do Festival 2009 antes de pegar a ponte aérea para a Mostra de SP. Mais do que um filme de Festival, dificilmente perde o posto de melhor filme do ano para abonequinha: “12″.
Começar dizendo que o filme do ator e cineasta russo Nikita Mikhalkov é um remake de “12 Angry Men“(1957) de Sidney Lumet é, no mínimo, reducionista. A estória é igualmente adaptada do roteiro de Reginald Rose: um jovem réu acusado de assassinar o pai num caso que parece ser de veredicto automático, logo se torna um drama pessoal de cada um dos doze jurados, seus preconceitos sobre o acusado e uns aos outros; mas “12″ (2007) não é outro senão um filme essencialmente russo:
Nikita, que atua como um dos jurados no caso de um adolescente acusado pelo assassinato de seu padrasto, um oficial militar russo que o acolheu durante a guerra da Chechenia, transpõe o cenário da sala do júri, para um anexo: o ginásio de um colégio e a história particular de cada jurado se funde na fragmentada sociedade russa dos tempos atuais.
Atual presidente da Fundaçăo da Cultura Russa e do Festival Internacional de Cinema de Moscou já se dedicava a filmes históricos na então URSS durante das décadas de 70 e 80. Em 77 “Peça Inacabada de Piano Mêcanico” mostra o choque das Rússias monárquica e revolucionária no seio de uma família de classe média. No documentário “Anna dos 6 aos 18“(1993) filmado ao longo de 12 anos com sua filha, tem o plano de fundo a vida política soviética. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 95 por “O Sol Enganador” em que transparecem a falência espiritual e o isolamento dos personagens refletidos em críticas sobre a modernidade e sobre os regimes políticos, seus temas constantes.
Pessoalmente, o roteiro e o enviesamento político são coadjuvantes quando o filme, como arte, envolve pela fotografia, direção e execução esplêndidas, a beleza, a profundidade, o ritmo do filme bem dosado com flashbacks da infância do réu, são entidades universais. Eu me derreteria em adjetivos e elogios. Mas deixo para o Júri de Veneza que concedeu a Nikita um prêmio especial pelo conjunto de sua Obra em 2007, ano que “12″ concorreu ao Leão de Ouro:
[Alguns preferem os finais, mas o "remake" me encantou desde os créditos iniciais, ali eu já tinha me apaixonado. E, apesar da realidade e cultura distantes e da legenda eletrônica não ser das melhores seguiram duas horas de cinefilia e deleite. No fim da sessão nem acenderam as luzes e uma dupla já palpitava essa ou aquela cena e "gostou do filme?" enquanto eu nem me mexia ainda comovida, e com os comentários mais pobres na saída da sessão como se fosse um programa de sábado a noite finalizado, sem pretensão, pensei: "o cinema é para poucos". ]

Uma nave espacial estaciona em nosso planeta e desta vez não está pairando sobre Washington ou Nova York, e sim Joanesburgo, Africa do Sul, nacionalidade do jovem diretor e roteirista Neill Blomkamp, que aos 22 anos teve indicação ao Prêmio Emmy pelos efeitos visuais na série televisiva de James Cameron: “Dark Angel”.
Graduado pela Vancouver Film School em Efeitos Visuais e Animação 3D tem em seu currículo de animador o filme “3000 Miles to Graceland” e a série “Smallville” e, aos 30 anos, estréia muito bem na direção de “DISTRICT 9″: ficção alienígena (muito da boa) que foge dos padrões de hollywood e renova bem sucedidamente o gênero.
O filme inova já pela perspectiva documental apresentada no ínicio e a refrescante idéia de um protagonista antiherói ao invés do mocinho sobrehumano; o personagem é interpretado na medida exata pelo ator também sulafricano Sharlto Copley: Wikus Van De Merwe é um ordinário funcionário da empresa privada MNU que administra o Distrito 9, colônia cercada onde vivem os alíenigenas após serem ‘resgatados’ da nave mãe. Após 20 anos num processo de favelização, os depreciativamente intitulados ‘camarões’ vivem confinados neste gueto militarizado em condições precárias de moradia e higiene sujeitos a prostituição interespécimes e contrabando por intermédio de gangues nigerianas que, assim como a MNU, estão interessadas na tecnologia do arsenal bélico encontrado na nave. É neste contexto que o protagonista é exposto a uma substância desconhecida e em consequência passa a ser procurado pelo governo e, foragido, tem apenas um lugar para recorrer: o Distrito 9.

“O imaginário do doutor Parnassus“, longa que Heath Ledger rodava na época de sua morte está confirmado na 33ª Mostra de Cinema de Sp, onde abonequinha aterriza entre 23 de outubro a 05 de novembro.
No filme, Dr. Parnassus (Christopher Plummer) é um contador de histórias que através de um espelho é capaz de abrir as portas de seu mundo de fantasia. Heath Ledger, que recebeu o Oscar póstumo esse ano de melhor ator coadjuvante na pele do nada sutil Coringa de “Batman – o cavaleiro das trevas”, interpretava um trambiqueiro que ajuda Parnassus a cumprir um pacto com o diabo (interpretado pelo compositor Tom Waits) para salvar a vida de sua filha.
O diretor Terry Gilliam, contou com a participação de três grandes atores de Hollywood para finalizar as gravações do ultimo personagem vivido por Ledger: Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell interpretam o mesmo trambiqueiro em sua viagem através do espelho mágico de Parnassus que permite explorar os mais sombrios reinos da imaginação.
O filme não obteve nenhuma crítica calorosa durante Festival de Cannes, mas segundo o colunista Charles Gant do jornal The Independent que esteve lá: “O desempenho de Ledger oferece um adequado último suspiro para os leais fãs de peregrinações aos cinemas da temporada”.
A apresentação de “O imaginário do doutor Parnassus” termina com uma merecida homenagem: “Um filme de Heath Ledger e seus amigos”.

Diretor dos clássicos: Chinatown e O Bebê de Rosemary, Roman Polanski foi levado sob custódia na Suíça por um mandado de prisao emitido nos Estados Unidos ha 30 anos atras, quando foi acusado e declarou-se culpado por tido por ter relacoes sexuais com uma jovem de 13 anos, em 1977.
Aos 76 anos, o cineasta foi detido no aeroporto, onde receberia um premio durante o Festival de Zurique. As autoridades locais sabiam que o pedido de detenção era válido e “É por isso que ele foi levado sob custódia.”, disse um porta-voz do Ministério da Justiça. O mesmo não explicou por que o diretor nunca havia sido preso antes Suíça, por onde o diretor que viveu na Polonia, ja havia passado por viagens e ate permanecido no pais.
Segundo seu advogado “ainda muito cedo para saber” se Polanski será extraditado. O ministro da Cultura francês, Frédéric Mitterrand, declarou-se “perplexo” e lamentou profundamente este “novo calvário na vida do cineasta“, remetendo implicitamente ao trágico assassinato de sua esposa, a atriz Sharon Tate, que estava grávida de oito meses, em 1969. Mitterrand ainda relatou que Sarkozy “está acompanhando o caso com muita atenção e partes esperam que o ministro que a situação pode ser rapidamente resolvido”.
Em comunicado, os organizadores do Festival de Zurique demosntraram sua “profunda consternação e tristeza“, e salientaram que seguirao com a planejada retrospectiva e que apresentariam o prêmio em outra data. Já a Associação dos Diretores Suíços criticou as autoridades sobre o que descreveu com “não só uma farsa grotesca da justiça, mas também um imenso escândalo cultural “.
Em 2003 , venceu o Oscar de melhor diretor por O Pianista; o premio foi recebido, em seu nome, pelo ator Harrison Ford, uma vez que Polanski nao desembarca nos Estados Unidos ha 30 anos, e tem evitado mesmo os países como o Reino Unido onde têm um tratado de extradição com os EUA.
fonte: The Guardian UK e Imdb

Sempre premiado, Steven Soderbergh transita com facilidade entre superproduções, filmes autorais, os sociais “Traffic” e “Erin Brockovich“, os políticos como “Che” e “Che parte 2 “, e metalinguísticos como“Full Frontal“, assim como os também sagazes e canastroes “Ocean’s 11, 12 e 13“.
Já em “The informant!”, o cineasta traz ás telas uma história verídica de Mark Whitacre, executivo de alto escalão achando que, ao denunciar a própria empresa por criação de cartel, ele ganhará uma merecida promoção, Mark acaba se envolvendo mais do que devia com FBIe sua mitomania.
“O Desinformante” tem um “que” de Prenda-me Se For Capaz e Queime Depois de Ler, referencias passivas e que perdem o brilho na trama, que é sim, merecidamente elogiada pela atuação de Matt Damon, não só fisicamente mas em sua contrução de um Whitacre com medidas balanceadas de ingenuidade, insegurança e cinismo.
O filme tem estréia prevista para 18 de outubro, mas pra quem não aguenta esperar pra ver Matt Damon gordo, de bigodes e peruca: o filme está na programação do Festival e tem sessões amanha (27) na Gávea (15:30 e 19hs), terça, no Cinemark Downtown e quarta no Roxy.

Baseado em uma história de Honoré de Balzac, “Nuncingen Haus” excessivo em estimulação pelo experimental, que marcas do prolítico diretor, a parte, beira o amadorismo por uma fotografia e edição de som novelesco, e é exatamente essa ‘experimentação’ ou ‘parece novela’ que fez do filme: a bomba desse Festival.
Raoul Ruiz nos leva à meados dos anos 30, onde um rico americano William James e sua esposa Anne-Marie, numa aposta, ganham uma bela casa muito bem localizada na beira dos Andes, mas não a encontraram vazia: entre os antigos moradores ainda estão lá: a medonha governanta Ully, o lord Bastien, a volúvel Lotte, o belo – e morto – Leonore e outros seres sobrenaturais.
“A Casa Nucingen” é rotulado “horror” mas conta com um humor no mínimo peculiar, dos diálogos à maneira com que exala o mal-estar generalizado que não demora a chegar ao expectador. Cheguei em cima da hora e o lanterninha ainda avisou “nao perdeu nada, esse filme é muito do ruim”. Estava certíssimo, só me restou criar a categoria ” Bonequinha de Carvão”.

O roteiro de Nicky Hornby (“Um Grande Garoto” e “High Fidelity”) é baseado nas memórias do jornalista Lynn Barber e nos apresenta a protagonista Jenny, de 16 anos, jovem bela e aplicada nos estudos, ainda que sua não-excelencia em latim seja recriminada pelo pai, vivido por Alfred Molina, que considera a disciplina essencial para que a filha garanta vaga na tradicional Oxford.
Mas o sufocamento provocado pela mesmice e o tédio adolescentes de Jenny encontra alívio e encantamento em David (Peter Sarsgaard): rapaz gentil, simpático, trinta e poucos anos:“um grande Gatsby”, que a deslumbra com dispendiosos jantares, passeios em conversíveis, leilões de arte, até uma viagem à Paris.
Assim como no romance de F. Scott Fitzgerald, o pós guerra permea o romance que, em suma: discorre sobre o dilema “eduação formal versus experiencia de vida” arquestrado com sofisticação pelas lentas da cineasta dinamarquesa Lone Scherfig, que já havia estreado em longas ingleses com “Meu Irmão quer se Matar“.
O elenco também é requintado e afinado: Dominic Cooper, Rosamund Pike, Sally Hawkins e Emma Thompson juntam-se a Molina e Sarsgaard num excelente filme que assim como “Fish Tank” (http://abonequinhaviu.wordpress.com/2009/09/21/o-peixe-e-o-padrasto/), tem a trama centrada em protagonistas do sexo feminino, indo em oposição ao cinema norte-americano.
“An Education” levou dois prêmios: para a diretora e o cinegrafista John de Bornan, além da nomeação ao grande premio do Juri em Sundance este ano e deve também, agradar a pláteia carioca.

A cineasta britânica Andrea Arnold abriu a disputa pela Palma D’Ouro em Cannes este ano com a exibição de sua melindrosa crônica adolescente, que deixou o Festival dividindo o Prêmio do Júri com o padre vampiro de Chan-Wook Park, de “Sede de Sangue”.
“Fish Tank” é centrado na jovem Mia, crescida em um ambiente desestruturado e emocionalmente hostil, que acostumada a violência verbal, é surpreendida pelo mínimo de ternura que lhe prestam, acabando por despertar fascinação pelo namorado de sua mãe. No filme, a infiltrada desconfiança e a carência afetiva são meticulosamente analisados no plano do previsível, mas nem por isso menos denso.
Arnold, que em 2006 ganhou o prêmio do júri trazendo a aspereza da natureza vingativa em “Red Road“, e já havia conquistado uma estatueta do Oscar no ano anterior pelo curta “Wasp”, tem todo o mérito ao extrair deste “Aquário” sutilezas e desconcertos de viés orgânico da estreante Katie Jarvis, ao optar por um tratamento quase documental.

O diretor sul coreano Bong Joon-ho já conquistou seu lugar no reduto dos festivais: por “Memórias de um Assassino“, ganhou o prêmio de Melhor Direção em San Sebastian de 2003 e teve seu maior sucesso de bilheteria “O Hospedeiro“(2006), exibido naquele ano, na Quinzena dos Realizadores em Cannes.
Em 2009 assina a direção de dois filmes presentes na programação do Festival do Rio e da Mostra de SP: “Tokyo!”( http://wp.me/sCZrc-55) e “Mother” que conta a história de Hye-ja, uma mãe desesperada ao ver seu pacato único filho emoldurado erroneamente por um crime, ela, sozinha, busca por todos os meios encontrar o verdadeiro assassino.
“Mother” também foi exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2009.

A sinopse de “Corações em Conflito” é morna mas ainda sim convidativa: um jovem e rico casal de Nova York e sua filha de 8 anos; ele, um webdesigner juntando somas de dinheiro e ela, uma cirurgiã. Ambos enfrentam dilemas existenciais: Ellen, em longos plantões médicos passa a questionar suas prioridades quando percebe que a filha prefere a companhia da babá filipina, esta, que só pensa nos dois filhos que deixou em seu país de origem; enquanto Leo, em viagem de negócios à Tailandia acabará por desencadear uma série de eventos que será dramática à todos os envolvidos.
O casal é protagonizado por jovens e renomados atores: Gael Garcia Bernal e Michelle Williams. Tudo parece normal por dois detalhes: o primeiro é a babá filipina que deixa os filhos para trás e se dedica a cuidar de outra criança por dinheiro e até onde vimos na resenha, o final não é feliz, logo retomei a memória a “Babel“, ao segmento em que o próprio Gael Garcia participa, e ficou uma sensação de “já vi isso antes”. Mas o que não encaixa no cenário é Lukas Moodysson.
Moodysson nada mais é o responsável pelo asco “Um Vazio em Meu Coração”, um filme banal, chocante e pretensiosamente provocativo na gratuidade, que tive o desprazer de assistir no Festival de 2004. Não consigo conceber como um cineasta que escolheu o viés desnecessária e absurdamente escatológico naquele ano, conseguiu um filme que além do grande público ter estômago para assistir, pacatos e conhecidos atores aceitaram os papéis e “Mammut” levou o Urso de Ouro em Berlim este ano.

“BAD LIEUTENANT: PORT OF CALL NEW ORLEANS”
Herzog (“duque” em alemão”), cultuado por sua versão do clássico de “Nosferatu“, de Murnau(1922), que levou o Urso de Prata em Berlim em 79, fez mais de 30 filmes: entre os mais recentes estão: os premiados documentários “The White Diamond“(2004), “Grizzly Man“(2005), “Encounters at the End of the World“(2007), a ficção “The Wild Blue Yonder” e o filme de guerra com Christian Bale, “Rescue Dawn“.
O eclético cineasta alemão, conhecido por seus inóspitos cenários como Alaska, Vietnan, Antártica e até outro planeta, este ano nos traz Nova Orleans e retoma o gênero que o consagrou: o remake, com “Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans”.
”Bad Lieutenant” de 1992 empresta o nome e um de seus roteiristas (Victor Argo) para este longa policial recheado de nomes e rostos conhecidos do grande público como Nicolas Cage, Eva Mendes, que sensatamente abraça sua personagem coadjuvante e deixa Cage dominar, o que, de fato, o faz muito bem, Val Kilmer e Fairuza Balk.
Em “…Port of Call New Orleans”: o detetive Terence McDonagh é promovido a tenente após salvar um prisioneiro de um afogamento decorrente do furacão Katrina numa cena inicial bem canastrona e com trilha policial dos anos 90. O ato ‘heróico’ no entanto deixa seqüelas e o personagem de Nicolas Cage torna-se dependente de analgésicos. Um ano depois já não consegue deixar de confiscar para si parte das mercadorias apreendidas no exercício de sua profissão. E este seu envolvimento em atividades ilegais acaba por comprometer seus padrões morais e coloca em risco sua próxima missão.

Escrito e dirigido por Sebastián Silva, o filme “La Nana” levou dois prêmios em Sundance: O Grande Premio do Jury e Melhor atriz para Catalina Saavedra, além dos prêmios de Melhor filme nos Festivais de Guadalajara e Cartagena 2009.
O filme chileno conta a história Raquel, que depois de 23 anos à serviço da família Valdes, sente-se usurpada quando seus patrões decidem contratar outros funcionario para ajudá-la. Raquel, então, através de travessuras infantis começa a sabotar os novos funcionários na ilusão de ser, ela, um membro da família. Apenas a última candidata, Lucy, é capaz de deslocar a protagonista de seus joguinhos de sabotagem para um momento de redescoberta pessoal. As lentes de Silva acabam por revelar a fragilidade de Raquel e vê-la evoluir é comovente.
Em “A Criada”, o diretor procura examinar, nesta complexa dinâmica familiar, a intercecção das forças social e pessoal que resulta numa incômoda, mas envolvente comédia dramática que abala e humaniza este insidioso resquício empoeirado da divisão de classe latinoamericana.
Os filmes da Mostra MIDNIGHT sempre aguardam um público de mente mais aberta, digamos assim. As temáticas são as mais variadas do bizarro, ao fantástico passando pelo trash, absurdo e ficçã o, que é o caso de ” The Clone Returns Home”.
Com o enredo de um astronauta que participa de um programa de clonagem experimental acabando por embarcar numa fatal missão espacial, tem seu “clone” ativado. Até aí tudo bem, mas ao encontrar o corpo de sua “matriz”, o clone retoma à memória um trauma de infância: a perda de um irmão gêmeo, e pensa então, estar diante do falecido irmão. O ciclo clone-irmão-falecido-outro clone pode por a perder a apreciação da luxosa fotografia fria.
O longa, nomedado ao Grande Prêmio do Júri em Sundande 2009, tem como produtor executivo, Wim Wenders dos cultuados “Buena Vista Social Club“, “Hotel de Um Milhão de Dólares” e “Paris, Texas“, por exemplo.

Os filmes de Isabelle Huppert selecionados para o Festival ainda não foram divulgados, mas antes de ser musa do cinema mundial, é simples e deslumbramente: A icônica professora de Piano de Michael Haneke; que inclusive este ano, com algum burburinho, levou a Palma D’Ouro do juri presidido por Mademoiselle Huppert pelo longa “Das weiße Band”.
Depois de “La Pianiste“(2001), que conquistou o Grande Premio do Juri, o diretor austriaco manteve quorum em Cannes com “Cachè“, três premios em 2005, incluindo Melhor Diretor, e que bem me lembro, não passou pela alfandega ha alguns Festivais atrás. Depois polemizou com a versão americana de “Funny Games”(2007), sem perder um elemento de sua assinatura: o gratuito. “The white ribbon” parece ir além ao retomar o denso, o cru, o visual e o visceral tão ímpares, presentes no próprio La Pianiste e Le temps du loup(2003).

O roteirista mexicano Guillermo Arriaga é reconhecido por sua premiada e bem sucedida parceria com o diretor também mexicano Alejandro González Iñárritu em “Amores Perros“(2000),”21 Gramas“(2003) e “Babel” (2006); este ultimo, obtevendo sete indicações e levando uma estatueta no Oscar 2007.
Em 2005 teve em seu roteiro “The Three Burials of Melquiades Estrada” o ator estreante na direção Tommy Lee Jones, que captou a densa sobriedade de Arriaga e ainda imprimiu com delicadeza, uma marca pessoal. Neste mesmo ano, “El Búfalo de la Noche” tem coautoria e direção de Jorge Hernandez Aldana que resultou apenas uma nomeçao secundária em Sundance.
Agora Arriaga volta assinando roteiro e, ineditamente a direção de “The Burning Plain”, sempre meneando uma angústia tal, que atinge o espectador e permanece. O longa tem um “quê” de “21 Gramas”, sem a afetação hollywoodiana mesmo com Charlize Theron e Kim Basinger coprotagonizando. É um filme perene, e redentor. As sequências e trilha sonora trabalhadas no visual desértico da fronteira México e Eua não faltam.
Ang Lee que já teve uma midnight session no Festival de 2007 com “Lust, Caution”, este ano, retorna ao Odeon com toda pompa e circunstância através da exibição de gala de seu novo filme, que marca a abertura do Festival Int’l de Cinema do Rio de Janeiro 2009.
“Aconteceu em Woodstock” foi escolhido pela efeméride dos 40 anos do maior evento do rock e “por tratar de um assunto relacionado à construção e realização de um sonho. Isso tem muito a ver com o espírito do nosso evento“, nas palavras da diretora executiva do Festival, Ilda Santiago.
O filme, baseado na história real de Elliot Tiber e sua família; tem atmosfera da ida do homem a Lua, da ideologia hippie, de uma geração que nasce num quintal, que em nada se parece com os tons pesados e a viés melindrosa de “Desejo e Perigo“, a não ser pelo plano de fundo: a Guerra do Vietnã, e, segundo o próprio Ang Lee, ambos também refletem seu desejo de testemunhar o mundo em quem que vive.
O diretor estadunidense R.J. Cutler, vencedor do Emmy de Melhor Reality Show por American High (2000) e indicado ao Oscar de Melhor Documentário por”The War Room” (1993), nos apresenta, sob o slogan “Fashion is you Religion, This is your Bible“: ”The September Issue“, filme que mostra os bastidores da edição mais concorrida da revista Vogue.
Além da monossilábia diretora executiva, Anna Wintour, a diretora-criativa Grace Coddington responsável pelo fantásticos editorias “que tem a intenção de ser um conto de fadas e fazer a pessoa sorrir e sonhar” coprotagoniza o filme, mostrando diferenças contrastante na personalidade das duas diretoras que, curiosamente, entraram para o staff da Vogue no mesmo dia.
O documentário “Uma Moda Transgressora“, exibido este ano em Berlim tem direção do cineasta alemão Marco Wilms, que já conquistou prêmio de Melhor Documentário no Festival de Sevilha por “Tailor-Made Dreams”(2006), antes mesmo de graduar-se e cursar o famigerado Actors Studio em Nova York, foi, ele próprio modelo.
O filme aborda um encontro de tres personagens: a designer Sabine von Oettingen, o fotógrafo Robert Paris, o estilista Frank Schäfer, figuras do submundo que participaram um momento de experimentações que permeavam o universo da Moda na extinta Berlim Oriental munidos de criatividade na busca pela liberdade individual.

O primeiro Festival que literalmente submergi, foi em 2004. Sessão de Kill Bill 2 no Odeon e rumores de que Tarantino estaria por lá. Ingressos esgotados, uma fila imensa que chegava ao amarelinho e eu ali defrente a bilheteria fechada, sendo alvo de olhares que certamente pensavem que eu ficaria por ali “a ver navios”, mas eis que uma alma caridosa e universitária me oferece um ingresso, meia-entrada, segui o coelho branco e nunca fui a mesma; e então, na primeira fila do Odeon conheci BlackMamba e ganhei um torcicolo. Foi meu primeiro contato com o Mundo do Festival.
Em 2007, foi Tarantino numa sessão & Rodriguez noutra. Zumbis e pussycats. Há quem não tenha gostado. Mas eu, que estive, em ambas sessões, me entretive do começo ao “The End”. Independente do filme vir a estrear posteriormente em circuito nacional, o que nem foi o caso, as pré estréia durante o Festival tem atmosfera ímpar, estão lá os cinéfilos ansiosos, fãs, nerds, cults e algo mais.
Este ano, “Bastardos Inglórios” encerra o Festival numa sessão concorridíssima pela ‘confirmada’ presença do cineasta mais cult e cool de todos os tempos. Mas Tarantino? “Tarantino não vem” ®…
































